Estreia de uma das seções do blog, sempre com perguntas puras e simples:
Você consegue imaginar Lewis Hamilton, com o carro mais rápido, obedecendo uma ordem para não atacar Nico Rosberg em pleno GP da Inglaterra?
Bem vindo ao blog Além da Velocidade. Espaço criado por Fábio Campos - jornalista especializado e integrante dos podcasts Café com Velocidade e Loucos por Automobilismo, com a intenção de discutir o esporte através da análise crítica, sempre buscando aprofundar-se nos debates que envolvem corridas, seja no Brasil ou no mundo. Aproveite esta página, leitor ou leitora. Compartilhe sempre suas opiniões com o blog e faça do Além da Velocidade um rico espaço de discussões e reflexões.
quarta-feira, 6 de julho de 2016
segunda-feira, 4 de julho de 2016
A hora de saber lidar com uma disputa pelo título que há muito tempo não era vista
Quase 3 décadas depois, dois pilotos
vão decidir o título mundial em guerra declarada e batalhando no estilo “só passa
se for por cima”... A não ser que seus superiores os proíbam
É um
sentimento quase perdido no passado da Fórmula 1.... É verdade que nos últimos
anos já assistimos pilotos brigarem pelo título até a última prova de um
campeonato, vimos pilotos discutirem pela imprensa ou até mesmo na sala de
espera antes do pódio. Mas a categoria máxima do automobilismo já não se
lembrava do que é viver uma disputa pelo título mundial com dois pilotos
dispostos a chegar “às vias de fato” dentro da pista.
E esse é o
momento dentro da Mercedes. Não é mais uma “simples” disputa pelo título – se é
que existe disputa simples por algum título. É uma guerra declarada. Mais do
que Spa-Francorchamps 2014 ou Barcelona 2016, o que o GP da Áustria de domingo
mostrou é que os dois pilotos da Mercedes estão dispostos a tudo para serem
campeões do mundo. Talvez um deles já tenha mostrado isso antes... Mas o outro,
se não tinha mostrado ainda, mostrou agora.
Muito além de
uma disputa na pista, mais do que uma dividida de curva ou briga pela vitória,
o que Rosberg fez na Áustria foi mandar uma clara mensagem ao companheiro (palavra
que vai se tornando a cada dia mais inadequada dentro da realidade da Mercedes):
“Se eu nunca te ultrapassei por fora, você não vai me ultrapassar por fora”.
Ponto final.
O leitor que
me conhece ou que se atentou ao texto de abertura deste blog na sexta-feira
sabe que não haverá aqui neste espaço a torcida por acidentes ou atitudes excessivas
dentro de uma corrida, mas na proposta de ir além da velocidade, pensando de forma ampla, não vejo o que
está acontecendo na F1 em 2016 como algo ruim, muito pelo contrário. O
sentimento de tensão para todos – espectadores, inclusive – está em nível elevadíssimo.
E isso é bom, porque esporte, qualquer que seja ele, envolve disputa,
rivalidade, envolve riscos e, não menos importante, envolve tensão.
Não é tarefa
fácil, mas é importante para o futuro da Fórmula 1 (que vive queda de audiência, embora muitos ainda se recusem a encarar isso como um fato) que os diretores da Mercedes entendam que sim, acidentes devem ser evitados, mas que podem ocorrer disputas duras, divididas de freada rigorosamente apertadas, e trocas de posições curva após curva com os dois pilotos deixando espaço e respeitando um limite. Esse é o trabalho a ser feito "nos bastidores" agora... Hamilton e Rosberg já fizeram isso. Webber e Vettel na Malásia em 2013 chegaram a dar uma aula ao mundo.
Mas infelizmente
a Formula 1, dominada pelos interesses das maiores construtoras de carros do
planeta, chegou a um ponto em que toda essa tensão, toda essa atmosfera que
está sendo vista em 2016 e que foi o grande “sabor” do GP da Áustria pode ser
riscada do mapa num estalar de dedos, numa simples decisão de um diretor de
empresa que passa a vida sentando num escritório e para o qual a Fórmula 1 é
apenas um “setor” que se encaixa em seu caro orçamento anual. Um setor sujeito
a decisões tomadas friamente, como igualmente frias são suas “metas empresariais”
que só objetivam o resultado.
Mas Fórmula 1
não é ciência exata – embora o modo de operar os carros hoje em dia se aproxime
disso, mas é assunto para post futuro. Fórmula 1 é corrida de carros, Fórmula 1
envolve calor humano e, como vimos
no Red Bull Ring, às vezes envolve decisões tomadas em momento de alta
adrenalina e mínimo tempo para se pensar.
Há maneiras
de se evitar extremos na disputa entre pilotos que não passem pelo rigor da
proibição daquilo que é a essência do esporte: a briga por uma vitória. É evidente
que nenhum diretor de equipe quer ver seus carros batendo um com o outro - estão certos de não querer isso. Mas neste momento entra a habilidade de um comandante, que age em beneficio de seu time sem cruzar a linha que separa a liberdade dos pilotos para demonstrar suas habilidades e a proibição que por tantas vezes já engessou outras corridas.
A última
guerra aberta que a Fórmula 1 viveu, dentro de uma equipe, foi evidentemente
Senna e Prost, já há quase 30 anos. Houve naquele tempo muito do que está
havendo agora: choques na pista e fora dela, desgosto público de um com o
outro, necessidade de intervenção de um certo Ron Dennis... E nem por isso a
McLaren deixou de brilhar e nem por isso aquele fim da década de 80 deixou de
estar na nossa memória como uma das disputas mais gostosas de se acompanhar em toda a
Fórmula 1.
Só espero que num futuro
distante possamos olhar para trás e lembrar da era “Rosberg x Hamilton” com um
sentimento de “como era bom naquele tempo”, e não como "uma boa briga interrompida por quem não teve habilidade de saber lidar com dois pilotos ultra-competitivos"
sexta-feira, 1 de julho de 2016
Bem vindo ao Além da Velocidade !!!
"It´s lights out, and away we go"
Normalmente a
expressão "apagar das luzes" significa o término de alguma coisa, os
últimos momentos de algo que está chegando ao fim...
Mas para nós,
fã de automobilismo, trata-se exatamente do contrário, não é? A expressão
“apagam-se as luzes” tem o significado inverso... Quer dizer que uma corrida acaba de começar,
e é geralmente aquele segundo (ou os milésimos / centésimos dentro dele) entre
o desligamento dos faróis e o primeiro movimento dos carros que constitui um
dos momentos mais emocionantes desse esporte... Aquele instante em que se
prende a respiração e o nível de atenção ao que está diante de nossos olhos atinge
o ponto máximo...
E é nesse “apagar
das luzes” em que se encontra esse blog. A partir deste 1º de Julho, largamos
para dar início a um espaço de reflexão e comentários sobre um dos mais desafiadores esporte do planeta. A intenção é que você leitor encontre aqui não notícias ou
manchetes, mas sim análise e opinião sobre a Fórmula 1 e outros destes campeonatos
que nos fazem colar na tela da TV a cada final de semana.
A ideia é
complementar o trabalho que você confere semanalmente no podcast Café com Velocidade, dando continuidade a assuntos e
discussões que, espera-se, sejam relevantes e nos levem para além da cobertura
rasa e superficial que, infelizmente, domina os principais meios de comunicação
envolvidos com o automobilismo.
Nesta jornada
que começa agora, vamos juntos acompanhar as corridas, os caminhos para onde o
automobilismo aponta e pensar os impactos que corridas, atitudes e mudanças
podem gerar a cada temporada, a cada fim de semana ou a cada GP que ainda teremos pela frente...
Vamos juntos
observar e ficar atentos aos canais de transmissão, aos veículos de imprensa (nacionais e internacionais) que
são tão importantes e de quem sempre se espera uma cobertura correta, com
analise fiel dos acontecimentos na pista e cuja qualidade do trabalho acaba
sendo fundamental para compreensão das corridas e opinião de muitos
que os assistem.
Este blog
busca, no fim das contas, empregar o uso de um jornalismo já quase esquecido
por muitos, e que anda sendo mal utilizado em tantos meios de comunicação, que
é o jornalismo crítico, sem qualquer tipo de compromisso ou tendência, e que busca focar única e
exclusivamente na analise do que é importante para o automobilismo ser um
esporte cada vez melhor, e com cada vez mais qualidade para quem o acompanha.
Teremos por
aqui um quadro que, espero eu, seja um grande sucesso entre os leitores, pois
será feito pelos próprios. A COLUNA DO LEITOR vai buscar trazer sempre as mais
diferentes opiniões, visões e comentários sobre tudo aquilo que você, o próprio
leitor, achar relevante. Quer participar? Se sim, considere-se a partir deste momento um colunista deste blog.
Utilize a seção
de comentários à vontade. A ideia é que as mensagens de cada post sejam sempre respondidas
e, tomando como base a experiência de um ano atrás (quando o Além da Velocidade vinha
em formato de colunas no blog Velocidade), certamente muitos posts aqui serão
criados em resposta aos comentários feitos por você, leitor.
Enfim, está
no ar “Além da Velocidade”! Acompanhe no twitter (@camposfb) e saiba com antecedência os posts e análises que estão ainda por vir, além de novidades deste espaço - que eu espero possa cumprir sua missão e
fazer a diferença, ainda que minimamente, no olhar dos fãs apaixonados pelo
mais fascinante esporte do planeta!
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016
A volta do velho Nurburgring ao automobilismo mundial
Quem apostaria que um
evento da FIA voltaria a acontecer em um dos palcos mais místicos da história
do automobilismo
“Assistir ao GP em
Nordschleife me fez pensar em como o automobilismo foi, ou vai, se apequenando
ao longo dos anos, como vai se tornando cada vez mais um esporte de bibelôs, de
meninos hábeis e envoltos de segurança exagerada, e vem deixando de ser uma
atividade para aqueles que já foram os seres mais corajosos, de maior bravura,
e cujo objetivo ao se tornarem pilotos era o de superar, no braço, as
dificuldades que uma pista e um carro lhes impunham”
Texto publicado em 19/05/2015 no site Velocidade
O
velho Nurburgring.... Uma oportunidade de ouro.... Quem gosta de automobilismo,
e quem gosta acima de tudo de conhecer a história da Fórmula 1 e das corridas
em geral teve neste último final de semana uma chance rara. Passados 39 anos
após sediar sua última corrida de Fórmula 1, o traçado de Nordschleife em
Nurburgring voltou a receber uma competição oficial da FIA.
Para
quem não sabe, trata-se do circuito de cerca de 25 km que a Fórmula 1 percorreu
por 22 vezes entre 1951 e 1976... Era um dos palcos mais fascinantes das
corridas de automóveis, até que o acidente quase fatal de Niki Lauda
interrompeu a história que a categoria máxima do automobilismo construiu no
mítico palco, um dos mais desafiadores entre todos já criados, pode-se afirmar
sem medo de errar. Niki Lauda escapou da morte naquele 1º de Agosto de 1976. O
traçado de Nordschleife não. Pelo menos para o universo do automobilismo de
ponta, naquele dia quem morreu foi a pista..... Foi exumada do calendário e
condenada a ponto turístico... Até
chegar este maio de 2015...
O
WTCC trouxe de volta a chance de todos admirarmos as curvas magistrais da pista
que invade a floresta, da pista que tem subidas e descidas altamente
desafiadoras, da pista que já tirou a vida de vários pilotos de Fórmula 1 (como
o argentino Onofre Marimon, em 1954 , o inglês Peter Collins em 1958, o
holandês Carel de Beaufort em 1964, o também inglês John Taylor em 66 e o
alemão Gerhard Mittler em 1969 – isto apenas para citar pilotos que morreram ao
volante de um Fórmula 1, sem incluir aqueles que perderam suas vidas na pista
ao volante de carros de outras categorias). Se você ainda não assistiu, e se
tem um mínimo de interesse no lado mais brilhante de uma corrida de carros, não
deixe de ver. É absolutamente impressionante ver a beleza do traçado, a variedade do traçado, as tomadas
aéreas, as pessoas próximas à pista, enfim, a atmosfera de um lugar que
contribuiu e muito para o automobilismo se tornar sinônimo de coragem, de
bravura e de desafio.
Numa
atitude que contraria suas próprias decisões na história recente, já que é ela
uma das responsáveis pela aniquilação de autódromos tradicionais (seja cortando
seus traçados ao meio ou eliminando do calendário mundial pistas que são
verdadeiros desafios aos seres humanos que por elas pilotam), a Federação
Internacional de Automobilismo deu o aval para uma corrida que jamais poderia
ter ficado tanto tempo longe dos olhos de uma geração inteira que cresceu
assistindo corridas, e ouvindo as histórias do “Inferno Verde” – apelido dado
por Jackie Stewart.
Durante
todos esses anos, Nordschleife esteve apenas no nosso imaginário, no máximo
como traçado de algum simulador desses que iludem as pessoas que pensam que um simples
jogo se assemelha ao desafio e à perícia que pistas como essa exigem na
realidade. Durante todos esses anos, Nordschleife se tornou parte de um passado
que parecia fadado a ser apreciado apenas nos arquivos das corridas.
É
incrível como a mentalidade das pessoas que comandam o automobilismo fez com
que todos acreditassem que era impossível correr em pistas longas, seja por
razões de segurança, por imposição da TV, ou até pelo patético argumento que
uma corrida precisa ter 70 e tantas voltas para que placas de publicidade
apareçam 70 e tantas vezes na televisão.
Todos
nós, pelo menos quem tem menos de 50 ou 60 anos, compramos e embarcamos nesta
ideia. Crescemos vendo corridas em pistas de 3 ou 4 km. Quando vemos uma pista
com 7 km, já vemos como algo “diferente”.
Assistir
ao GP em Nordschleife me fez pensar em como o automobilismo foi, ou vai, se
apequenando ao longo dos anos, como vai se tornando cada vez mais um esporte de
bibelôs, de meninos hábeis e envoltos de segurança exagerada, e vem deixando de
ser uma atividade para aqueles que já foram os seres mais corajosos, de maior
bravura, e cujo objetivo ao se tornarem pilotos era o de superar, no braço, as
dificuldades que uma pista e um carro lhes impunham. O velho Nurburgring
desafiava os pilotos em todos os aspectos, era o exemplo da razão – acredito –
pela qual muitos seguiam o caminho das corridas. Pela satisfação pessoal, não
para se tornar rico ou popstar.
Muitos
ainda acreditam que o caminho dos últimos anos é o correto. Sim, foi “apenas”
um fim de semana de WTCC, e muitos argumentarão – até com razão - que essa
prova não significa que estamos próximos de uma mudança de cultura. Eu mesmo
argumento que o próprio WTCC talvez não sirva de parâmetro de uma categoria de
peso, já que – apesar de ser um certame mundial da FIA – não se trata de um
campeonato ranqueado no topo das categorias do automobilismo. Sequer entre as
categorias de turismo.
Mas
eu prefiro encarar o fim de semana de corridas em Nordschleife como uma
excelente oportunidade. Antes
de tudo, uma oportunidade para que todos nós possamos rever certos conceitos.
Ao assistir à corrida em Nurburgring, vemos que corridas assim, ainda que como
exceção, podem existir. É possível sim posicionar fiscais, câmeras de TV,
pontos de atendimento em uma pista de 23, 24 km. O WTCC mostrou que é possível
“sobreviver” a corridas como a deste final de semana.
Oportunidade
para Confederações, organizadores e a própria Federação Internacional vejam que
este tipo de corrida mexe com as pessoas. O número de barracas e pessoas
acampadas próximas a pista é uma prova disso. Mais importante do que o lucro, é
importante criar um vínculo com espectador. O fascínio das pessoas por uma
pista, por um traçado, é suficiente para arrastar multidões a um autódromo.
Quem já foi a algum dos grandes circuitos do planeta sabe disso. Como
dirigentes, eles deveriam saber.
Oportunidade
para que emissoras de TV entendam que com a tecnologia e os recursos de hoje, é
muito mais fácil transmitir e coordenar a transmissão de um GP numa pista de 20
km do que nos anos 50, 60 e 70, quando essas pistas eram usadas. Basta ter
iniciativa.
Oportunidade,
enfim, para refletirmos. Precisávamos mesmo ter perdido estas pistas? Em que
momento a obsessão com a segurança nos fez seguir a filosofia de que somente as
pistas curtas, muitas delas enfadonhas e repetitivas, trariam segurança ao
automobilismo?
Em
que ponto da história o desafio de pilotar perdeu para o temor ao risco de
acidentes?
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016
Quem o regulamento da Fórmula 1 deveria de fato proteger
Se a Red Bull abandonar o esporte, a Fórmula 1 teria como tapar, de
imediato, o buraco deixado pela saída de 4 carros do grid de uma só vez?
“A Fórmula 1 se deixou arrastar para um ponto em que não é mais
possível conquistar, ou sequer sonhar em conquistar, qualquer coisa sem que
seja despejado algo perto de meio bilhão de dólares em desenvolvimento,
estrutura, salários, túnel de vento, equipes enormes de engenheiros e pesquisa
7 dias por semana dentro das fábricas”
Texto publicado em 02/05/2015 no site Velocidade
Dietrich Mateschitz afirmou há alguns
dias que a sua empresa, a Red Bull, pode sair da Fórmula 1.
E pode mesmo...
Vamos tentar fugir da análise rasa e
simplista que aponta para algum tipo de “esperneio”, ou “choro de perdedor”,
como alguns disseram. A questão vai além disso. Por mais que os resultados nas
pistas estejam sendo preocupantes para aqueles que venceram 4 dos últimos 5
campeonatos mundiais, e por mais que as razões das reclamações possam de fato
ser questionadas – todos sabemos que não só no esporte mas em todos os
segmentos da vida há uma hora de vencer mas também há um momento em que se é
derrotado - ainda assim há algo na
essência do discurso da Red Bull que precisa ser captado, que precisa ser
pensado.
Independente do destino que a Red Bull
escolha seguir, as indicações de possibilidades não muito favoráveis ao esporte
devem sim ser levadas em consideração. Afinal, não seria a primeira grande
companhia a sair da Fórmula 1. Não seria a última, provavelmente. E, como pior
de tudo, não seria a primeira vez que a Fórmula 1 veria desaparecer do grid uma
das equipes mais vitoriosas de todos os tempos.
A possível saída da Red Bull, caso
ocorresse hoje, simplesmente aleijaria a Fórmula 1. Paradoxalmente, é a
oportunidade da Fórmula 1 repensar e discutir porque o mais importante para ela
deveria ser zelar pelas equipes pequenas, e não as grandes, apesar do estrago
que a saída da Red Bull faria no grid de hoje. Este é o principal argumento
desta coluna de hoje.
Em principio há um paradoxo no
pensamento, certo? Hoje a presença da Red Bull é quase que fundamental para se
ter um grid – que já é dos mais raquíticos – com um mínimo aceitável de carros.
Mas é justamente pela possibilidade de saída de uma “grande empresa” que a
Fórmula 1 deveria olhar para aqueles que hoje são chamados de “pequenos”, mas que
na verdade e na história da
categoria são muito maiores do que os imediatistas dos dias atuais podem
imaginar. A Fórmula 1 se tornou refém, se tornou dependente das “empresas
gigantes”, mas não são elas que a Fórmula 1 deveria proteger, ou por quem deveria
zelar – todo o seu regulamento deveria “convidar”, ou deveria servir para
manter no esporte aqueles que fizeram a Fórmula 1 chegar onde chegou, e que
construíram algumas das mais ricas páginas de sua história: as autênticas
equipes de corridas, e não montadoras ou companhias que fazem da Fórmula 1
apenas mais um departamento entre os vários que existem em suas estruturas.
Especificamente sobre a Red Bull, evidentemente
há na Fórmula 1 um jogo de “pressão por vias externas”, ou seja: uso da mídia
para declarar posições de forma muitas vezes mais exagerada do que elas
realmente são. Algumas equipes já utilizaram desta tática. O próprio mandatário
da Fórmula 1 usa a mídia a seu bel prazer – mídia essa que se deixa levar e
manipular com facilidade, diga-se de passagem – para projeções catastróficas ou
profecias desconexas.
Mas os tempos atuais são preocupantes, o
leitor há de concordar. O grid está pobre, a raiz estrutural privilegia alguns
poucos, os gastos estão enormes, pilotos pagantes se tornaram figuras comuns. Hoje,
a Fórmula 1 não está em condições de perder mais carros no grid, muito menos de
perder uma das empresas que mais se envolveram com automobilismo desde que esse
esporte passou a existir. Eu mesmo talvez não tenha visto uma empresa se envolver
em tantas categorias, com tantos pilotos e com tamanha seriedade de projeto
como a Red Bull. Por isso, acho que merecem que suas declarações sejam ouvidas.
Empresas não choram, empresas não
esperneiam. Empresas agem. Empresas cortam orçamento. Se alguém – e ninguém
mais ninguém menos que o presidente da empresa, ou seja, não se trata de uma
figura qualquer da cadeia de comando – vem a publico e coloca a participação de
seu time na Fórmula 1 em questão, isto deve ser considerado e debatido por quem
se preocupa com o futuro da categoria. Mesmo que seja algo para atrair atenção
para a causa da equipe (uma mudança no regulamento, no caso, para ajudar na
verdadeira batalha pela qual passa a Renault para fazer um motor minimamente
competitivo), a saída da Red Bull não é uma possibilidade a se descartar.
Afinal, não seria a primeira grande corporação a desistir da Fórmula 1 quando
lhe convém. Ou alguém que acompanha a Fórmula 1 pode garantir, com 100% de
certeza, que a Red Bull ficará no esporte para sempre? O que nos resta é
cogitar os cenários prováveis que o futuro pode nos apresentar.
Todo ano, em algum momento do verão
europeu, os diretores da companhia se reúnem e discutem a permanecia – sendo
mais especifico: o retorno financeiro – da empresa na Fórmula 1. Não é um
procedimento novo, ou que tenha relação com a atual dificuldade da equipe em
conseguir resultados dentro da pista. Trata-se de um procedimento padrão, uma
reunião anual de uma empresa que faz seus balanços e levanta seus dados. Não há
nada de anormal no fato de uma grande empresa fazer isso. E estas mesmas
reuniões ocorreram em 2011, 2012, 2013.... Enfim, também nos anos em que a Red
Bull conquistava resultados incontestáveis.
O possível prejuízo, ou o tamanho da
perda para a categoria com uma possível saída da Red Bull é muito grande, muito
maior do que deveria. Por isso eu afirmo que mesmo que não saiam agora, a
simples ameaça já joga luz (ou deveria jogar) no grave problema da categoria: a
dependência das grandes empresas. E raciocinemos com clareza o fato obvio que
poucas pessoas querem enxergar: algum dia eles irão sair. Não vão ficar para
sempre.
E caso saiam hoje, possuiria a Fórmula 1
condições estruturais para preencher 4 vagas no grid? Não se esqueça, leitor,
que a Red Bull põe na pista 4 carros atualmente, e não apenas dois.
A Fórmula 1 se deixou arrastar para um
ponto em que não é mais possível conquistar, ou sequer sonhar em conquistar,
qualquer coisa sem que seja despejado algo perto de meio bilhão de dólares em
desenvolvimento, estrutura, salários, túnel de vento, equipes enormes de
engenheiros e pesquisa 7 dias por semana dentro das fábricas.
Atingimos aqui o chamado “ponto de
reflexão”: Por ter chegado a esta situação, a Fórmula 1 passa a ser dependente
de empresas que deveriam – sem sombra de dúvida – participar do esporte, mas
não controlar o esporte, não fazer do esporte algo que premie apenas quem tem
mais dinheiro.
A propulsão financeira sempre fará
diferença nos esportes. Em todos eles. O que dizer então de um esporte que possui
equipamento tão complexo, tão desenvolvido, com tantas peças e tanta tecnologia
por trás? Sem dúvida, é ilusório pensar que um dia teremos uma Fórmula 1 com 12
equipes de tamanhos equivalentes. Mas há uma distância entre uma equipe ter
melhores condições por ter um maior orçamento e um cenário como o atual: onde
apenas quem tem dinheiro, e muito, tem chance de alcançar algo maior na
categoria.
O que pode ser feito para mudar esse quadro? O que
poderia ser a Fórmula 1 de hoje sem alguns dos erros do passado? E mais
reflexões sobre o momento de times pequenos x grandes equipes são temas que
voltaremos a discutir no futuro.
O que o começo tão promissor de pilotos tão inexperientes significa para a Fórmula 1?
Além do promissor Max
Verstappen, a Fórmula 1 tem visto vários pilotos brilharem mesmo chegando à
categoria com quase nenhuma experiência.
“A Fórmula 1 sempre foi
o ápice, o topo, não apenas em termos de tecnologia, de mídia ou de currículo,
mas principalmente de dificuldade. O carro de Fórmula 1 foi, e deveria ser
sempre, a máquina que mais exige preparo, esforço e aprendizado daquele que se propõe
a pilotá-lo. Para se ter sucesso na Fórmula 1, deveria ser fundamental guiar
vários monopostos diferentes, ter uma vasta experiência em situações de
corrida, acerto de carro e um mínimo de aprimoramento técnico”
Coluna publicada em 16/04/2015 no site Velocidade
Max
Verstappen estreou na Fórmula 1 em 2015. Em três corridas, deixou ótima
impressão. Sua precocidade levantou vários questionamentos antes do inicio da
temporada, por causa de sua idade e sua falta de experiência. Eu confesso que
gostei de acompanhar em vários veículos e em outros locais da internet as
dúvidas, ainda na “inter-temporada”, em torno da aposta que a Toro Rosso estava
prestes a realizar.
Após
3 corridas, vejo que para muitos as dúvidas estão esclarecidas. Para muitas
pessoas os questionamentos são de fato coisas passageiras (para outras eles nem
sequer existem), mas como este colunista parece ter vindo ao mundo para
questionar, acho que sou um dos poucos para quem, após 3 boas corridas, as
atuações de Max Verstappen jogam luz sobre um ponto pouco explorado do
automobilismo atual. Para este que vos escreve, a confirmação do talento de
Verstappen gera outras dúvidas – quem sabe até mais pertinentes, você leitor
julgará – sobre como um piloto que mal completou 50 corridas na carreira já
surge como futura estrela das pistas.
Explica-se,
antes que se exponha qualquer argumento: questionar o sucesso de Verstappen,
que é o que esta coluna fará, não significa questionar o talento de Verstappen.
Já aproveito para deixar clara e expressa ao leitor a minha ótima impressão
inicial deste menino. Guia com precisão: embora erros sejam naturais, raramente
os cometeu até agora – mas ainda há muito caminho pela frente, não nos
esqueçamos. Além disso, ele me parece ter uma característica muito
interessante, que é um bom controle de carro. Suas ultrapassagens em Xangai foram
muito interessantes. Algumas com alto grau de técnica, e em algumas delas uma
sensação nítida de um estilo de atacar – tardiamente dentro da curva –
diferenciado. O ano de 2015 indica até o momento que, na pior das hipóteses, ele
se adaptou muito bem ao carro, à equipe, à Fórmula 1.... E isso na pior das
hipóteses! Na melhor delas, é possível dizer que é um talento que ainda
poderemos apreciar por longo tempo. Ainda é muito cedo para o julgarmos,
positiva ou negativamente, então devemos aguardar um pouco mais. O texto aqui
apresentado não é de fato sobre ele.
A
intenção do texto é questionar se não há algo minimamente curioso no fato de
que um menino de 17 anos, com tão poucas corridas no currículo, assente num
carro de Fórmula 1 e não mostre dificuldade de guia-lo. E não se trata de um
caso único ou raro.
Perceba
caro leitor, que Max Verstappen é apenas um exemplo usado para o
questionamento. Eu poderia iniciar a coluna puxando pelo nome de Carlos Sainz,
ou de Daniil Kvyat – este último com trajetória semelhante à de Verstappen:
muito jovem, ascendeu à Fórmula 1 de uma categoria ainda muito rasa entre as
que definimos como “de base” e fez uma temporada que deixou impressão positiva,
tão positiva que ela já foi alçado à equipe principal da Red Bull.
Pareceu-me
pertinente começar com Verstappen por ser provavelmente o exemplo mais nítido
do raciocínio proposto: assustadoramente jovem, com experiência próxima de
zero, e já apto a performances que impressionam. Mas o questionamento se dá
pelo fato de vários outros pilotos, mesmo sem talento tão apurado, terem
chegado à Fórmula 1 e parecem não ter sentido as mesmas dificuldades que, no
passado, outros experimentaram quando chegaram ao ápice do automobilismo mundial.
A
pergunta que surge, e que é muito difícil de ser respondida por quem está
apenas do lado de fora, é: o quanto os carros de Fórmula 1 são difíceis de
guiar? Entendam que fazer essa pergunta não significa dizer que são equipamentos
fáceis de manusear. Para responder essa pergunta com exatidão, só mesmo alguém
que já sentou e guiou aquelas máquinas. E é sempre bom lembrar que estamos
falando de um esporte onde 3 décimos de segundo significam uma substancial
diferença entre equipes ou pilotos. Mas talvez o melhor questionamento seja
comparativo: em relação ao passado, o quanto ficou menos complicada a vida de
um piloto de Fórmula 1?
Que
me desculpem os discordantes, mas não consigo deixar de refletir sobre o tema ao
ver um menino de apenas 17 anos
chegar à Fórmula 1 e não sentir falta do aprendizado que uma GP2 ou World
Series, por exemplo, oferecem. Mas a idade, mesmo muito tenra, não surpreende
mais do que a falta de rodagem
desses pilotos. Tornou-se nos últimos anos algo quase corriqueiro um piloto
sair de categorias incomparavelmente menos potentes do que a principal delas,
com monopostos que estão mais próximos de um kart do que de um carro de Fórmula
1, e ser alçado à categoria máxima.
Por
mais que exista o talento, há algo que me causa estranheza no fato de a Fórmula
1 não ser mais o topo de uma montanha difícil de escalar. A Fórmula 1 sempre foi o ápice, o topo, não apenas em termos de tecnologia,
de mídia ou de currículo, mas principalmente de dificuldade. O carro de Fórmula
1 foi, e deveria ser sempre, a máquina que mais exige preparo, esforço e
aprendizado daquele que se propõe a pilotá-lo. Para se ter sucesso na Fórmula
1, deveria ser fundamental guiar vários monopostos diferentes, ter uma vasta
experiência em situações de corrida, acerto de carro e um mínimo de aprimoramento
técnico.
A
Fórmula 1 não deveria estar ao alcance das crianças. A Fórmula 1 deveria ser o
auge de uma longa carreira, o resultado de um longo esforço, deveria ser um prêmio, sim, àqueles que lutaram
por ela ou a mereceram depois de vivenciar situações desfavoráveis e
dificuldades, e depois de comprovada evolução como piloto de corridas.
Pense
com seus botões, leitor, qual foi a última vez que vimos um piloto chegando à
Fórmula 1 e sofrendo para conseguir performance? Ou para conseguir “dominar” o
equipamento? Yuji Ide, talvez... Mas ele não conta, pois se encontra muito
abaixo do nível médio dos pilotos de monopostos. Existiu nos últimos anos
alguém para quem possamos apontar o dedo e dizer claramente que sucumbiu ao
desafio de um carro de Fórmula 1?
É
claro que é sempre bom ter boas novidades na categoria. É sempre interessante
ver um piloto chegando e mostrando técnica. Isso causa em nós a expectativa de
que o nível de talento do campeonato será elevado. Tudo isso procede, de fato.
Mas uma coisa é um piloto chegar à Fórmula 1 tendo passado, por Fórmula
Renault, Fórmula 3, mais algum tempo em uma World Series / GP2, ou seja, tendo
se preparado amplamente para as diversas dificuldades que terá pela frente.
Outra, bem diferente, é um piloto com menos de 50 corridas na carreira não ter
dificuldade em guiar um Fórmula 1.
Em
qualquer esporte de alto nível, apenas talento não deveria ser suficiente para
o sucesso. Em qualquer esporte de alta performance até mesmo o talento precisa
ser trabalhado, precisa ser aprimorado, precisar ser desenvolvido. Não parece
ser o caso hoje do automobilismo. Isso é algo sobre o qual deveríamos pensar.
As
novas regras de pontuação para se obter a superlicença vão impedir que estes “saltos
de categorias” aconteçam no futuro, então talvez esta seja a ultima
oportunidade de percebermos que a distância do carro de Fórmula 1 para o de
Fórmula Renault talvez tenha se tornado curta demais.
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